Johannesburg, como sempre, nos recebeu com uma linda manhã de sol, e um céu sem uma nuvem sequer. O aeroporto está sendo ampliado para receber o grande número de turistas que estarão no país em 2010 para a Copa do Mundo, mas acho que eles terão muito trabalho pela frente. O setor de imigração no aeroporto é uma vergonha: às 8h da manhã havia apenas quatro funcionários para atender os passageiros que chegavam naquele momento. E olha que só havia duas aeronaves no pátio: além do nosso voo, um Boeing 747 da British Airways proveniente de Londres. Mesmo assim, formou-se uma fila de mais de 300 passageiros. Não fossem as 9 horas de conexão, e correríamos até o risco de perder o voo para Hong Kong.
Mas enfim… Como passageiro em trânsito, após passar pela imigração você é levado diretamente ao nível de embarque, sem passar pela área externa do aeroporto. Como ainda restavam mais de 8 horas para o prosseguimento até HKG, o negócio é passear bastante, entrar com calma em todas as lojas, ver e rever 10 vezes cada produto. Este ano pelo menos tive uma grata surpresa: com a reforma, foi no mínimo duplicada a área de lojas do saguão de embarque. Mais lojas para visitar, menos tempo para esperar.
Mas a verdade é que eu só fui me ater mesmo na “Out of Africa”, uma loja sensacional, com uma infinidade de artigos para decoração, objetos de uso pessoal, roupas, louças, esculturas, enfim, e tudo com motivos africanos. Vi um monte de coisas legais, mas cometi o erro de não comprar nada, pois a minha ideia era não trocar os dólares que eu levava, já que não sabia o quanto acabaria gastando na China. Se sobrasse algum valor, aí sim eu já havia definido o que comprar na volta, durante as três horas de conexão. Mal sabia eu que o destino me faria voltar pela Europa, mas isso é história para mais adiante…

E aí, vai um couro de zebra para pendurar na parede? Foto: arquivo pessoal
Depois desse giro pelas novidades do aeroporto, o cansaço começou a bater, e decidi que era hora de dar entrada na Premier Lounge, que é uma espécie de sala VIP, onde alguns funcionários e clientes de determinadas empresas têm acesso livre. E mesmo para os que não pertencem a nenhuma destas categorias como eu, eles liberam o acesso mediante uma “contribuição” de módicos US$ 30,00. O preço é caro, mas pelo direito de ter acesso livre à Internet, poltronas para tirar um cochilo, snacks e bebidas à vontade, e até um chuveiro para tomar banho, vale a pena.
Bom, me apresentei, entreguei meu passaporte, perguntei se eles davam troco em dólares americanos, e paguei com duas notas de US$ 20,00. A moça pegou as notas e olhou, olhou, virou, esfregou… E chamou a supervisora dela. Conversaram alguma coisa no dialeto delas, que não consegui identificar se era zulu ou xhosa, e depois de uns 30 segundos de apreensão de minha parte, a tal supervisora me perguntou (em inglês, logicamente):
– Onde você conseguiu estas notas?
- Sei lá, no banco, respondi. Por quê?
– Por que elas são muito antigas! Veja só: da série de 1981!
- Ah, é? Pois eu nem tinha reparado!
A senhora ficou impressionada com a idade da nota, mas disse para a funcionária “ok, it’s not fake!”. Deu vontade de perguntar: Escuta, dona, há quantos anos a moeda norte-americana é o dólar? Não importa se a nota é de 1981, 2008 ou 1930! A moeda é a mesma, o valor é o mesmo! Mas fiquei calado, até porque a celeuma já tinha passado, e ao me devolver o passaporte, o troco e o recibo, peguei minha mochila e entrei na sala sem mais conversa. Lá dentro, enquanto alguns participantes do grupo tiravam um cochilo, outros estavam concentrados em seus notebooks.
Bom, como eu não tinha um notebook, tratei de juntar duas poltronas, uma de frente para a outra, de modo a formar uma espécie de “berço” para algumas horinhas de descanso. E acho que entre uma virada de lado e outra, emendei umas boas 3 horas de sono naquela que era a cama mais confortável do mundo naquele momento. Por volta das 12h no horário local, o estômago mandou um alerta, e então levantei para comer alguns salgados e tomar uma Schweppes. Como ainda restavam mais de 4 horas para o voo, fui matando o tempo do jeito que dava: um pouco de conversa, mais um cochilo, uma lida rápida numa “Veja” que alguém deixou por ali, outro cochilo… Lá pelas 15h, peguei uma toalha e fui tomar um banho. Pode parecer insignificante, mas vocês não sabem a diferença que faz tomar um banho antes de encarar um voo com mais de 13 horas de duração! Principalmente porque àquela altura já fazia mais de 24 horas que eu havia tomado o último, ainda em casa.
Cueca e meias limpas, camiseta nova, cabelo lavado e perfume no cangote, juntei minhas coisas e desci para aguardar a chamada para o voo. Mais alguns minutos e as porteiras para o SA 286 foram finalmente abertas. Pela quantidade de gente em pé na fila do portão, já dava para perceber que seria mais um voo de lotação máxima. Alguma dúvida?
Dentro da aeronave, ocupei meu assento na fileira 52, sempre no corredor, e durante a maior parte do embarque só havia o passageiro sentado na outra ponta, ou seja, restavam os dois assentos do meio entre nós. Mas quando as portas estavam se fechando, surgiram os dois ocupantes que faltavam: um casal de africanos, ele com quase 2m de altura e uns 120 kg de força, no mínimo, e ela com peso semelhante, mas com "apenas" 1,70m de pura… gordura. Eu sei que não é de propósito, ela não tem culpa de ser assim, mas era grande demais para aquele assento no meio. Mesmo sentada bonitinha, com a poltrona na posição vertical, sobravam pernas, braços e gordura para os dois lados. Pelo menos ela não cheirava mal…
O sol começava a se despedir no horizonte de JNB quando o Airbus A340-600 iniciou a corrida nos 4.418m da pista 21R do O. R. Tambo International Airport, e alguns segundos depois ganhava os céus da África do Sul, rumo a etapa de aproximadamente 13h20min com destino à Hong Kong. Antes do jantar, mais uma dose de Amarula para abrir o apetite, vinho branco sul-africano para acompanhar o peixe servido na janta, e depois do café as luzes da cabine foram reduzidas, para que os passageiros pudessem iniciar o descanso, mais do que necessário para quem encara longas jornadas transoceânicas como essas… Como do meu lado direito o encosto de braço havia sido dominado pelo pequeno cotovelo da minha vizinha, me escorei no braço esquerdo mesmo, pernas apontadas para o corredor, e entre alguma das músicas do disco “Sleep Through the Static” do Jack Johnson, engatei o primeiro cochilo de muitos outros que este voo proporciona…
* Texto publicado originalmente no meu antigo blog Life Is Hard, But…, em 15 de abril de 2009, com pequenas modificações, correções e atualizações.