O CURIOSO

FATO: Para ser bem compreendida e contada, uma história precisa ir muito além dos fatos.

Por ter crescido em meio a muitos segredos e mentiras, a curiosidade foi algo que se desenvolveu em mim muito cedo, antes mesmo que eu tivesse o discernimento entre o que seria legal descobrir e o que seria melhor nem ter sabido.

Certo é que ela sempre me manteve em alerta constante, me ajudou a superar momentos difíceis, e se tornou uma grande aliada no período em que tive uma infância estável, onde a apliquei com todas as forças na busca pelo que havia de real além do arco-íris que era pintado diariamente na janela da minha casa.

Toda criança se depara com isso durante o ensino escolar, mas poucos são curiosos o bastante para buscar a tal ‘verdade além dos fatos’. Poucos são capazes de erguer a mão e discutir guerras e revoluções com o professor de História na 6ª série, não por ideologia trazida de casa, mas sim por puro inconformismo com a forma como as informações são enfiadas goela abaixo.

Se na infância esse é um comportamento que você sequer entende porque tem, quando vem a adolescência as coisas começam a fazer sentido, até pela própria transformação pela qual todo ser humano passa, com o amadurecimento do cérebro e a efervescência no comportamento causada pelos hormônios da puberdade.

E quando você se torna um adulto, começa a trabalhar e ter suas obrigações, de repente percebe que desenvolveu um poder fundamental para a sua sobrevivência: o de estar ‘ligado’ o suficiente para não deixar que (quase) ninguém te enrole, nem consiga te ‘passar para trás’ como se diz no coloquial.

Só que aí vem a pior parte: quando você já se sente seguro o suficiente em não deixar passar batido aquilo que é mais importante nas histórias que lhe são constantemente apresentadas, você se sente tentado a sair da teoria e pular para a prática: você começa a buscar o que além dos fatos não das histórias, mas das pessoas. A curiosidade te guia cegamente no caminho perigoso de tentar descobrir as verdades atrás de cada rosto, de cada olhar, de cada palavra, enfim, de cada pessoa que cruza o seu caminho. E nessa ânsia, você pode acabar utilizando as mesmas táticas que cresceu vendo as outras pessoas aplicarem.

Hoje eu descobri que, em 27 anos de vida, meu maior erro foi sempre tentar conseguir as coisas erradas de pessoas certas.

Fato.

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A TRIP TO CHINA – PART 3*

O que você faz em 13 horas? Para muitos, esse tempo representa um dia inteiro de trabalho. Para outros, pode ser tempo suficiente só para iniciar algo que vai levar muito mais tempo para ficar pronto. As respostas podem ser as mais diversas. Mas e se eu restringir a pergunta para “o que você faz em 13 horas dentro de um avião que está cruzando o Oceano Índico a 11.000 metros de altura?” Aí tenho certeza de que as opções ficam escassas.

Quem já encarou longos voos como estes que nos levam a outros continentes sabe da tortura que é encarar todo esse tempo num espaço absolutamente limitado… Há os que simplesmente dormem, quase o tempo todo, sem se incomodarem com as luzes, as conversas e os barulhos dos outros. Estes eu imagino que sejam os mais felizes. Há os que aproveitam para pôr a leitura em dia, e passam a maior parte do tempo devorando linhas e linhas de livros com centenas de páginas. Também há os que aproveitam para curtir a programação de filmes, vídeos e músicas oferecidas pelas companhias. E há os que tentam fazer de tudo um pouco, mas não conseguem fazer satisfatoriamente nenhuma dessas atividades, como eu.

Quem me conhece talvez imagine que, por ser magro, seja mais fácil para mim encarar o desconforto das poltronas das classes econômicas. Ledo engano. Com meus ossinhos expostos e desprotegidos pela falta de gordura, os encostos das poltronas ficam mais duros, os apoios para os braços machucam mais meus cotovelos, sem falar nos joelhos do passageiro da poltrona de trás, quase sempre tentando corrigir meus desvios de coluna sem anestesia. Não que eu quisesse ser gordo, e também não tenho nada contra os gordinhos, mas vendo a tranquilidade com que minha vizinha de poltrona dormia, esparramada por sobre seu assento, sobre o meu assento e sobre suas gordurinhas, imagino que ela tenha chegado em Hong Kong bem menos cansada do que eu.

Mas enfim…  Entre pequenos cochilos, idas ao banheiro, algumas músicas, goles de água e um ou outro filme, finalmente entramos na reta final deste voo. Faltando cerca de duas horas para o pouso, quando já estamos sob os céus da Tailândia, as luzes da cabine são reestabelecidas, e os comissários iniciam o serviço de café da manhã, despertando gentilmente os passageiros que relutam em acordar, para que depois ninguém venha reclamar de fome quando o avião iniciar a descida para o pouso. Depois de matar a fome com um macarrão à bolonhesa ( a outra opção eram ovos mexidos!), é hora de encarar a fila para a última ida ao banheiro antes do pouso. Nessa hora você pode ficar até 20 minutos esperando, como aconteceu comigo. Agora cá entre nós: apenas 4 toilets na classe econômica, para atender uma cabine com a lotação máxima de quase 200 passageiros, é brincadeira. Mas para quem ficou 12 horas sentado, 20 minutinhos de pé até que não é uma má pedida, pois ajuda a reestabelecer a circulação sanguínea nas pernas e tudo mais.
               
Hong Kong and it’s thick fog… Foto: arquivo pessoal
Pousar no aeroporto de Chek Lap Kok em Hong Kong é um desafio para poucos. Nessa época do ano o céu é coberto por uma densa neblina o dia inteiro. E essa neblina se sustenta a uma altura de uns 200 metros em relação ao nível do mar, no máximo. Então, até dois minutos antes de tocar o solo, o piloto e os passageiros olham pela janela e não enxergam coisa nenhuma, a não ser essas nuvens brancas por todos os lados. De repente a neblina some, e o avião está tão perto do mar que a sensação que a gente tem é que o piloto errou a mão e vai atirar aquela porcaria dentro d’água mesmo. Mas como o aeroporto fica numa ilha, a gente não vê terra firme mesmo até segundos antes do touchdown.

Touchdown esse que aconteceu um pouco depois das 12h no horário local. Depois de uns 10 minutos taxiando, finalmente o Airbus ganhou o pátio do aeroporto, e em seguida iniciou-se o desembarque. Assim como em JNB, atravessam-se longos corredores até os counters da imigração. E a cena quando se chega é assustadora: eu contei por cima umas 800 pessoas, entre hongkongers e estrangeiros, nas filas do passport control. Mas como quase tudo na Ásia, a coisa funciona bem: vários funcionários verificando os documentos, e em menos de 15 minutos venci a fila e parti para a esteira de bagagem. Este ano minha mala demorou pacas, muito mais do que no ano passado, mas como meu partner Ilton Heberle também esperava a dele, ficamos ali trocando algumas ideias, até que ambas finalmente apareceram. Aí é só comprar os bilhetes do fast train que nos leva do aeroporto até a cidade, e logo estaríamos no hotel.
          
Depois de cruzarmos em 20 minutos a distância entre a ilha de Lantau e a península de Kowloon, chegamos na “Airport Express Station”. Para quem vem do aeroporto, há diversas linhas de micro-ônibus (microonibus? microônibus?) gratuitas, que te levam até diversos hotéis e pontos turísticos da cidade. Subimos no K3, e pouco depois desembarcávamos na porta do “The Salisbury YMCA Hotel of Hong Kong”.
 
Feito o check-in, agora é só subir para o quarto, desfazer as malas, tomar um banho e… trabalhar!  Nada de cair na cama, pois por mais que o cansaço lhe implore para se atirar no travesseiro, se você pegar no sono às 14h, vai acordar lá pelas 20h cheio de energia, e consequentemente vai passar a noite inteira em claro. E o resultado disso é que você vai estar caindo pelas tabelas no dia seguinte, primeiro e mais importante dia da feira. É hora de vencer o fuso e o cansaço. É hora de trocar de roupa e dar uma passadinha no HKCEC, para conversar com os participantes que foram um dia antes justamente para montar os estandes, ver se tudo ocorreu bem durante a viagem, rever amigos do ano passado, e principalmente se manter acordado. É hora de ser forte.
  
  
* Texto publicado originalmente no meu antigo blog Life Is Hard, But…, em 17 de abril de 2009, com pequenas modificações, correções e atualizações.

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A TRIP TO CHINA – PART 2*

Johannesburg, como sempre, nos recebeu com uma linda manhã de sol, e um céu sem uma nuvem sequer.  O aeroporto está sendo ampliado para receber o grande número de turistas que estarão no país em 2010 para a Copa do Mundo, mas acho que eles terão muito trabalho pela frente. O setor de imigração no aeroporto é uma vergonha: às 8h da manhã havia apenas quatro funcionários para atender os passageiros que chegavam naquele momento. E olha que só havia duas aeronaves no pátio: além do nosso voo, um Boeing 747 da British Airways proveniente de Londres. Mesmo assim, formou-se uma fila de mais de 300 passageiros. Não fossem as 9 horas de conexão, e correríamos até o risco de perder o voo para Hong Kong.

Mas enfim…  Como passageiro em trânsito, após passar pela imigração você é levado diretamente ao nível de embarque, sem passar pela área externa do aeroporto. Como ainda restavam mais de 8 horas para o prosseguimento até HKG, o negócio é passear bastante, entrar com calma em todas as lojas, ver e rever 10 vezes cada produto. Este ano pelo menos tive uma grata surpresa: com a reforma, foi no mínimo duplicada a área de lojas do saguão de embarque. Mais lojas para visitar, menos tempo para esperar.

Mas a verdade é que eu só fui me ater mesmo na “Out of Africa”, uma loja sensacional, com uma infinidade de artigos para decoração, objetos de uso pessoal, roupas, louças, esculturas, enfim, e tudo com motivos africanos. Vi um monte de coisas legais, mas cometi o erro de não comprar nada, pois a minha ideia era não trocar os dólares que eu levava, já que não sabia o quanto acabaria gastando na China. Se sobrasse algum valor, aí sim eu já havia definido o que comprar na volta, durante as três horas de conexão. Mal sabia eu que o destino me faria voltar pela Europa, mas isso é história para mais adiante… 

E aí, vai um couro de zebra para pendurar na parede? Foto: arquivo pessoal

  
Depois desse giro pelas novidades do aeroporto, o cansaço começou a bater, e decidi que era hora de dar entrada na Premier Lounge, que é uma espécie de sala VIP, onde alguns funcionários e clientes de determinadas empresas têm acesso livre. E mesmo para os que não pertencem a nenhuma destas categorias como eu, eles liberam o acesso mediante uma “contribuição” de módicos US$ 30,00. O preço é caro, mas pelo direito de ter acesso livre à Internet, poltronas para tirar um cochilo, snacks e bebidas à vontade, e até um chuveiro para tomar banho, vale a pena.
           
Bom, me apresentei, entreguei meu passaporte, perguntei se eles davam troco em dólares americanos, e paguei com duas notas de US$ 20,00. A moça pegou as notas e olhou, olhou, virou, esfregou…  E chamou a supervisora dela. Conversaram alguma coisa no dialeto delas, que não consegui identificar se era zulu ou xhosa, e depois de uns 30 segundos de apreensão de minha parte, a tal supervisora me perguntou (em inglês, logicamente):
– Onde você conseguiu estas notas?
- Sei lá, no banco, respondi. Por quê?
– Por que elas são muito antigas! Veja só: da série de 1981!
- Ah, é? Pois eu nem tinha reparado!
A senhora ficou impressionada com a idade da nota, mas disse para a funcionária “ok, it’s not fake!”. Deu vontade de perguntar: Escuta, dona, há quantos anos a moeda norte-americana é o dólar? Não importa se a nota é de 1981, 2008 ou 1930! A moeda é a mesma, o valor é o mesmo! Mas fiquei calado, até porque a celeuma já tinha passado, e ao me devolver o passaporte, o troco e o recibo, peguei minha mochila e entrei na sala sem mais conversa. Lá dentro, enquanto alguns participantes do grupo tiravam um cochilo, outros estavam concentrados em seus notebooks.
 
Bom, como eu não tinha um notebook, tratei de juntar duas poltronas, uma de frente para a outra, de modo a formar uma espécie de “berço” para algumas horinhas de descanso. E acho que entre uma virada de lado e outra, emendei umas boas 3 horas de sono naquela que era a cama mais confortável do mundo naquele momento. Por volta das 12h no horário local, o estômago mandou um alerta, e então levantei para comer alguns salgados e tomar uma Schweppes. Como ainda restavam mais de 4 horas para o voo, fui matando o tempo do jeito que dava: um pouco de conversa, mais um cochilo, uma lida rápida numa “Veja” que alguém deixou por ali, outro cochilo…  Lá pelas 15h, peguei uma toalha e fui tomar um banho. Pode parecer insignificante, mas vocês não sabem a diferença que faz tomar um banho antes de encarar um voo com mais de 13 horas de duração! Principalmente porque àquela altura já fazia mais de 24 horas que eu havia tomado o último, ainda em casa.

Cueca e meias limpas, camiseta nova, cabelo lavado e perfume no cangote, juntei minhas coisas e desci para aguardar a chamada para o voo. Mais alguns minutos e as porteiras para o SA 286 foram finalmente abertas. Pela quantidade de gente em pé na fila do portão, já dava para perceber que seria mais um voo de lotação máxima. Alguma dúvida?

Dentro da aeronave, ocupei meu assento na fileira 52, sempre no corredor, e durante a maior parte do embarque só havia o passageiro sentado na outra ponta, ou seja, restavam os dois assentos do meio entre nós. Mas quando as portas estavam se fechando, surgiram os dois ocupantes que faltavam: um casal de africanos, ele com quase 2m de altura e uns 120 kg de força, no mínimo, e ela com peso semelhante, mas com "apenas" 1,70m de pura… gordura. Eu sei que não é de propósito, ela não tem culpa de ser assim, mas era grande demais para aquele assento no meio. Mesmo sentada bonitinha, com a poltrona na posição vertical, sobravam pernas, braços e gordura para os dois lados. Pelo menos ela não cheirava mal…
 
O sol começava a se despedir no horizonte de JNB quando o Airbus A340-600 iniciou a corrida nos 4.418m da pista 21R do O. R. Tambo International Airport, e alguns segundos depois ganhava os céus da África do Sul, rumo a etapa de aproximadamente 13h20min com destino à Hong Kong. Antes do jantar, mais uma dose de Amarula para abrir o apetite, vinho branco sul-africano para acompanhar o peixe servido na janta, e depois do café as luzes da cabine foram reduzidas, para que os passageiros pudessem iniciar o descanso, mais do que necessário para quem encara longas jornadas transoceânicas como essas…  Como do meu lado direito o encosto de braço havia sido dominado pelo pequeno cotovelo da minha vizinha, me escorei no braço esquerdo mesmo, pernas apontadas para o corredor, e entre alguma das músicas do disco “Sleep Through the Static” do Jack Johnson, engatei o primeiro cochilo de muitos outros que este voo proporciona…
    
   
* Texto publicado originalmente no meu antigo blog Life Is Hard, But…, em 15 de abril de 2009, com pequenas modificações, correções e atualizações.

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A TRIP TO CHINA – PART 1*

Sexta-feira, 27 de março de 2009. Encerrado o expediente, só me restava ir para a casa fazer as malas. Passaporte conferido, passagens, lista de passageiros do grupo, vouchers dos hotéis, seguro de viagem, informações sobre Guangzhou, tudo à mão. Em pouco mais de 12 horas, iniciaria novamente uma viagem ao outro lado do mundo.

Sou daqueles que gosta de fazer as malas na noite anterior. Quanto mais perto da hora da viagem, melhor. Malas feitas com antecedência correm o risco de serem modificadas sistematicamente até a hora da viagem. Tiro coisas que antes achava importante; adiciono roupas que inicialmente pensei que não usaria, e por aí vai. Isso toma tempo e estressa. Então, o negócio é fazer uma vez só.

Entre pausas para assitir um pouco de televisão e para comer alguma coisa, fui me enrolando até umas 2h da manhã. Como às 3h começava o treino para o GP da Austrália de F1, fui me mantendo acordado. Terminado o treino às 4h, finalmente fui para a cama curtir minhas 3 horas de sono, até o momento de acordar para o grande dia. Acordei às 7h ainda com sono, mas de certa forma tranquilo. Quanto mais cansado você estiver ao encarar voos de 8horas, 13 horas como os que me esperavam, maiores as chances de você conseguir dormir e sofrer um pouco menos com as agruras de uma viagem intercontinetal como essa.

Ao levantar, um banho quente, café da manhã sem exagero, malas para o carro, e hora de partir. Meus irmãos e minha namorada me acompanharam até o aeroporto, que surpreendentemente apresentava um movimento bastante grande para um sábado de manhã. Os minutos que eu “ganhei” na estrada foram todos perdidos na fila do check-in. Ao receber o cartão de embarque, já estava na hora da apresentação para o voo. Um rápido abraço de despedida em todos, e chegou a hora de embarcar até São Paulo.

Um voo tranquilo até GRU, como são praticamente todos os voos nesse trecho, quando cumpridos sob um céu sem nuvens. Chegando lá, ainda tive que aguardar  45 minutos até a abertura do check-in da South African Airways, o que ocorreu às 13h30min. Nesse momento, uma grande fila já se formava na frente dos balcões, um prenúncio de que provavelmente teríamos uma etapa até Johannesburg com voo lotado. E assim foi. Conversei com o Sr. Efrain Vauches, supervisor da companhia que trabalhava naquele dia, e ele me informou que o overbooking na econômica havia alcançado a marca de 50 passageiros. Ali senti que ficaria mais um ano sem meu upgrade para a cabine executiva da SAA, o que infelizmente se confirmou mais tarde na chamada para o embarque.

Check-in efetuado, dei um giro pela imensidão de escassas opções do aeroporto de Guarulhos. Duvido que algum aeroporto internacional no mundo tenha menos atrativos do que Cumbica. Meu almoço foi um hambúrguer em um restaurante qualquer que imitava as opções de cardápio do McDonald’s, e enquanto comia sentou-se à mesa comigo um senhor, cujo nome não me lembro, português de nascimento, mas que se criou no Canadá e morava havia 20 anos nos EUA, nas proximidades de Boston. Me contou que fez um giro de 6 meses por diversas cidades do Brasil, do Sul ao Nordeste, analisando a viabilidade de abrir franquias da famosa grife Victoria’s Secret, que ele representa. Conversamos sobre diversos assuntos, dos problemas do Brasil à Barack Obama, e depois de terminarmos nossos lanches e nos despedirmos, ainda fui assistir aos lances de um jogo de vôlei da Superliga Masculina que passava em um dos telões do aeroporto, antes de me dirigir à sala de embarque.

A chamada para o embarque sofreu um atraso de 30 minutos, e a partida do voo idem. A essa altura, uma fina chuva já cobria toda a região do aeroporto e suas pistas. O que não quer dizer nada em um aeroporto internacional como Guarulhos, mas que já me pôs uma pulga atrás da orelha. Durante esta viagem, descobri que estou desenvolvendo um certo temor de andar de avião. Sim, eu sei que mesmo com a grande quantidade de acidentes ocorridos no mundo todo nos últimos anos, voar é ainda o meio mais seguro de se ir aos lugares que precisa, etc. Mas eu tenho o direito de temer tudo aquilo que me causa sofrimento, e é fato que viagens de avião têm me deixado muito nervoso, principalmente depois que fecham as portas comigo dentro, e já não há mais como voltar atrás e pedir para descer.

Ocupei meu assento na fila 55, no corredor, e descobri que um simpático senhor ocupava o assento ao lado. Conversamos pouco, e depois ele engatou um papo mais longo com a espanhola que sentou ao lado dele, espertinho que é. Depois que os dois descobriram que estavam indo para o Quênia então, papo era o que não faltava…

Por volta das 18h, com um load factor de 100% tanto na executiva quanto na econômica, o Airbus A340-600 fechou suas portas e recebeu autorização para decolar rumo à JNB. Peguei os fones de ouvido, escolhi o canal de áudio onde são executadas músicas instrumentais, e tratei de fechar os olhos e não me concentrar na decolagem, o que foi fisicamente impossível quando o comandante alinhou na cabeceira e aplicou potência total nos 4 motores RR Trent 500 do Airbus. Mesmo com a aeronave cheia e a pista molhada, a corrida foi relativamente curta, e em pouco mais de 20 segundos o voo SA 223 ganhava os céus de Guarulhos em direção a terra da Copa do Mundo de 2010.  Assim que aeronave estabilizou, começou o serviço de bordo sempre eficiente da SAA. Uma dose de Amarula para abrir o apetite para a janta, um vinho tinto sul-africano para acompanhar o macarrão servido, e depois de assistir ao filme dos Simpsons (ainda não tinha visto), reclinei a poltrona, inflei minha almofada para o pescoço (grande aquisição para este ano), e fui atrás de alguns minutos de descanso. Nunca é fácil para mim dormir em aeronaves, e desta vez não foi diferente, ainda que entre pequenos cochilos eu calculo ter dormido umas duas horas, nesta etapa que foi cumprida em pouco mais de oito. Mas o sono bom mesmo eu fui tirar no dia seguinte, durante as 9 horas de conexão em Johannesburg, como eu contarei no próximo capítulo.
  

* Texto publicado originalmente no meu antigo blog Life Is Hard, But…, em 13 de abril de 2009, com pequenas modificações, correções e atualizações.
 

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VALE A PENA VER DE NOVO – A TRIP TO CHINA

Neste exato instante, nos últimos dois anos, eu estava em algum lugar nos céus do Oceano Pacífico, cumprindo a última etapa das viagens que fiz até Hong Kong, acompanhando um grupo de empresários que participam anualmente da MM&T, uma das maiores feiras voltadas à indústria do couro no mundo.

Este ano, por uma série de motivos (econômicos, políticos e financeiros), a empresa onde trabalho não enviou ninguém para acompanhar o grupo. E nem havia essa necessidade, face ao reduzido número de empresários que participarão da feira em 2010. No ano passado eu já havia notado um certo desinteresse por parte de muitos, que queixavam-se do alto custo da viagem para um retorno em volume de negócios nem tão alto assim.

O fato é que, desde o meu retorno no ano passado, comecei a fazer planos para a viagem deste ano, o que acabou me deixando um pouco frustrado (tá bom, confesso, muito frustrado) quando soube que não viajaria em 2010. Pensei em muitas formas de aliviar essa frustração, e a que me pareceu mais interessante foi reviver a viagem do ano passado, dividindo as minhas experiências com vocês.
 
Mas como fazer isso?
 
Até o mês de junho de 2009, eu escrevia frequentemente no “Life Is Hard, But…”, meu antigo blog, que foi então substituído por este aqui. E foi no LIHB que eu publiquei, logo após o meu retorno, a série “A Trip to China”, uma espécie de diário pós-viagem, falando não só da viagem em si, mas também das atrações de Hong Kong, da cultura, dos costumes, das diferenças entre o Oriente e o Ocidente, enfim, do meu dia-a-dia na China, e tudo sob um ponto de vista bastante peculiar, com algumas fotos e dados interessantes que, tenho certeza, vão agradar bastante quem dedicar alguns minutos por dia a acompanhar essa mini-série (ou seria minissérie???) da vida real.
  
Espero que todos gostem!

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PREÇO X CONFORTO – QUAL O LIMITE?

Ao longo destes 9 anos nos quais trabalho no ramo do turismo, mais precisamente na representação de companhias aéreas, já ouvi diversas queixas de clientes, de clientes dos clientes, de amigos, de conhecidos, e até de familiares, sobre os serviços prestados por determinada empresa durante o voo, especialmente no caso das viagens internacionais. E a maioria das reclamações é sobre o conforto – ou a falta dele – na aeronave, incluindo não só o espaço em si, mas também serviço de bordo, entretenimento, etc. Aí, quando os indago sobre o motivo da escolha por esta companhia na hora da compra, invariavelmente a resposta que escuto é  “era a mais barata”. E essa reclamação geralmente se transforma em surpresa, admiração, e até espanto, quando lhes digo que, por 300 reais a mais, poderiam ter desfrutado de um voo muito mais confortável.

“Mas como, Allan?”

O Brasil vivenciou uma espécie de “inclusão aérea” nas duas últimas décadas, por uma série de fatores que muitos devem saber (tá bom, pra quem não sabe, as principais: “abertura dos céus brasileiros” para as empresas aéreas de outros países, o que aumentou a competitividade; estabilização econômica, que mantém o dólar num patamar aceitável e permite às pessoas planejarem gastos com segurança; otimização dos custos de operação das companhias, principalmente daquelas que surgiram ou passaram a operar sob o conceito “low cost, low fare”, o que aumentou a oferta de assentos e trouxe as tarifas para patamares próximos aos das tarifas de ônibus em alguns trechos; entre outras coisas). Essa inclusão criou um novo grupo de viajantes aéreos, que conheciam o que era viajar de avião só de ouvir os relatos dos mais afortunados de outrora, que rasgavam elogios aos serviços da Varig mesmo na classe econômica, etc. Então, toda vez que estas pessoas se acomodam no assento e apertam o cinto, imaginam que em instantes serão testemunhas de um verdadeiro show, que para os desavisados certamente vai terminar em frustração.
  
Mas longe do glamour de tempos idos, mesmo hoje em dia é possível ser agradavelmente surpreendido por bons serviços dentro de um avião, pagando uma tarifa muito próxima das consideradas “mais baratas”. E a chave para isso se chama “informação”. Ao consultar seu agente sobre tarifas para o seu próximo destino, principalmente nas viagens internacionais, perca o costume de pedir sempre “o mais barato”. Procure se informar sobre os motivos e diferenciais que fazem as outras companhias terem tarifas diferentes. Para lhe ajudar na hora de buscar estas informações, segue um pequeno guia sobre o que é interessante saber antes de emitir seu bilhete na tarifa mais barata – e acabar frustrado na chegada:
   
      
VOOS DIRETOS

Voos diretos costumam ser mais caros. É uma lógica da aviação, afinal cobra-se a mais pelo conforto de não precisar encarar escalas e conexões. Mas você sabe o quão mais caros eles realmente são?
Normalmente, para viagens à Europa e à América do Norte, os voos diretos custam entre US$ 200 e US$ 300 a mais que os voos com conexões. Mas esse valor pode ser menor, em função de um detalhe que poucos se dão conta: as taxas de embarque. Na grande maioria dos países, mesmo que você só faça conexão em um de seus aeroportos, sem sair da área de embarque, você precisa pagar as taxas de embarque locais. E em alguns casos elas são tão caras, que você pode acabar pagando de R$ 200 a R$ 500 a mais do que pagaria no voo direto! Resultado: o que era pra ser mais barato, acaba ficando no mesmo patamar. Portanto, procure saber o custo total da viagem, incluindo as taxas de embarque, e não somente o valor da tarifa publicada. Peça sempre ao seu agente para, além da opção mais barata, lhe informar também o custo do voo direto, se é que existem voos diretos para onde você vai. Só para ilustrar: pouca gente sabe, mas muitas companhias operam voos diretos do Brasil para cidades como Córdoba (Argentina), Panama City (Panamá), Havana (Cuba), Charlotte (EUA), Porto (Portugal), Istambul (Turquia), Praia (Cabo Verde), Luanda (Angola) e Tel-Aviv (Israel).
  
 
ROTAS E CONEXÕES
Em alguns casos, as tarifas mais baratas são oferecidas por companhias que não operam toda a rota. Elas fazem o transporte até um determinado aeroporto (os chamados hubs), e de lá o prosseguimento é feito com outras companhias, através de acordos chamados de “interline”, ou mesmo em voos compartilhados, mais conhecidos como “code share”. Porém, muito cuidado com estas conexões, e principalmente com o tempo que você terá para embarcar no próximo voo. Em grandes aeroportos (como Heathrow em Londres; Barajas em Madri; Charles de Gaulle em Paris, só para citar alguns exemplos) existem 4 ou 5 terminais, tão distantes entre si que o deslocamento entre eles precisa ser feito através de ônibus e/ou trens. E isso, por mais que funcione, toma um tempo precioso. Já pensou se o seu voo chega em Madri no terminal 1, e você precisa se deslocar até o terminal 4 para embarcar no próximo? Então, antes de bater o martelo, peça ao seu agente para checar estas informações na reserva, e caso exista essa troca de terminais, procure se informar sobre como ela é feita, que meios o aeroporto oferece para esse deslocamento, e o principal: não aceite opções cujo tempo de conexão seja inferior a três horas, no mínimo. Não esqueça que, além do deslocamento dentro do aeroporto, podem ocorrer atrasos na chegada. E é sempre mais cômodo ter tempo sobrando do que ter correr pelos terminais afora (já passei por isso duas vezes, e posso lhes afirmar: é uma situação nada agradável).
 
 
AERONAVES – MODELOS E OPÇÕES DE ENTRETENIMENTO
Você entende de aviões comerciais? Sabe a diferença entre um Boeing 737 e um Airbus A330? Ou você é daqueles que só sabem a diferença entre um “teco-teco” e um “jumbo”? Se você respondeu “sim” somente à última pergunta, saiba que esse é um detalhe importantíssimo nas viagens internacionais, principalmente naquelas com mais de 8 horas de duração.
Hoje em dia existe uma infinidade de opções para você viajar de um continente ao outro, e cada companhia tem as suas características. A frota é uma delas. Mesmo entre aquelas que operam aviões de longo alcance, há equipamentos muito diferentes entre si, não só em tamanho, como em conforto, tempo de uso, e opções de entretenimento. Vou usar o exemplo de uma companhia aérea americana que opera diariamente voos do Brasil para Miami, Nova Iorque e Dallas. Alguns destes voos são operados com novíssimos Boeings 777, os famosos “triple seven”, enquanto outros são operados com os já “rodados” Boeings 767. Além da segurança e do conforto de voar numa aeronave de novíssima geração, nos voos operados com o 777 você tem à disposição, em todas as cabines, telas individuais com o sistema AVOD (audio/video on demand): você pode assistir a vídeos, filmes, seriados e documentários na hora em que quiser, pausá-los quando for necessário, além de ter uma infinidade de canais de áudio e até mesmo jogos para as crianças (ou para você mesmo, nada contra!). Já nos “tiozões” 767, não existem telas individuais na classe econômica (somente na executiva e na primeira classe), o que significa que, se você quiser se distrair, vai ter que assistir aos vídeos que são exibidos nas telas principais da aeronave, junto aos divisores de cabines, sem opção de escolha. Durante um voo noturno de 8 horas, você até pode tentar ignorar a falta de opção e cair no sono, mas e se o voo for diurno? Não há revista de bordo que o mantenha entretido por tanto tempo… E sabe o que é mais interessante? Não existem diferenças nas tarifas de uma mesma companhia, para um mesmo destino, em função da aeronave que vai operar! Então, procure saber que tipo de aeronave será utilizada na sua viagem, e quais são as opções de entretenimento que ela oferece. Mais uma vez aqui entra a experiência própria: já cruzei o mundo daqui para a China duas vezes, e posso afirmar que faz uma tremenda diferença ter à disposição esse tipo de entretenimento.
                                

  E aí: você sabe dizer qual deles é o “Brasília”? Fotos: airliners.net
         
                   
Estes são apenas alguns dos muitos tópicos para levar em consideração na hora de comprar seu bilhete, antes de simplesmente optar pelo “mais barato”. Pequenos detalhes que podem fazer a diferença entre uma viagem tranquila e outra estressante.

Semana que vem eu volto, com mais um texto sobre aviação comercial. Se você tiver dúvidas, ou quiser sugerir temas para a série, me escreva! O e-mail é allan-garcia@hotmail.com.

Até a próxima!

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